ANTONIO ROQUE CITADINI

A ação dos órgãos fiscalizadores pode ser preventiva. Não bastasse a quebra da Enron, tem-se, agora, a notícia de fraudes praticadas nas não menos gigantes americanas WorldCom e Xerox, além de rumores de fraude na francesa Vivendi Universal.

Tais notícias abalam o mercado de ações, com graves reflexos na economia do País, e trazem descrédito ao trabalho realizado pelas empresas de auditoria, as quais têm uma reserva legal de mercado, vez que todas as empresas de capital aberto são obrigadas a submeter seus balanços patrimoniais e demonstrativos, periodicamente, ao crivo de auditores independentes.

Na nova ordem econômica, a busca por maior lucro foi de tal modo perseguida que os fez esquecer certos cuidados exigidos na tomada de decisões e até desprezar riscos delas decorrentes.

O mesmo ocorreu com as empresas de auditoria. Foram envolvidas pela mesma idéia de obter maior lucro e, para isso, encontraram o caminho da consultoria, entre outros serviços. Deu-lhes, até agora, bom resultado financeiro, pois o noticiário é de que a atividade de consultoria permite àquelas empresas um faturamento quatro vezes superior ao da auditoria.

É, no entanto, condenável por ser contrário à ética, dado o conflito de interesses. Antevíamos o resultado da falácia que agora está-se comprovando com os enganos cometidos por aquelas empresas, ao oferecerem consultoria aos seus próprios clientes de auditoria.

Como é normal dar-se maior atenção ao trabalho que maior resultado oferece, os serviços inerentes à atividade-fim da auditoria acabaram sofrendo um certo desprezo, a ponto de se deixar passar uma fraude tão simplista como a que ocorreu na WorldCom: lançar-se despesas como investimentos, alterando, assim, o lucro.

No mínimo, falta de atenção e de exame do documento que serviu de base para o lançamento contábil. Faltou, por certo, supervisão no trabalho. Os executivos das auditorias devem ter entendido que deveriam se envolver mais nos projetos dos clientes, pois isso lhes traria maior lucro.

O resultado desastroso está aí. O lucro de uma empresa repercute no preço de sua ação na bolsa e precisa estar alicerçado em dados tecnicamente confiáveis. Daí a exigência da auditoria, dita independente. Os escândalos abalam a credibilidade no trabalho das auditorias e atingem, mortalmente, o mercado de capitais, pela perda da confiança nos balanços publicados, os quais deixam de trazer a certeza dos lucros anunciados.

Se o lucro publicado no balanço não é confiável, ficará o mercado sem parâmetro para atribuir valor de negociação em bolsa para a ação da empresa.

Fica difícil para a economia e a sociedade em geral conseguir dominar os efeitos nefastos produzidos por uma situação criada, pela falta de credibilidade nos dados tornados públicos e relativos à receita, às despesas, aos investimentos e aos lucros gerados.

As autoridades governamentais e também os órgãos de controle do exercício profissional devem estar atentos a esses acontecimentos, não só para aplicar a punição devida e merecida em cada caso, mas, também, para agir preventivamente, buscando evitar tais fatos.

(Antonio Roque Citadini, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.)

(Gazeta Mercantil, Opinião, 11-07-2002,p.A-3)