Antonio Roque Citadini


Os defensores da parceria MSI-Corinthians nos jornais, nas emissoras de TV e principalmente nas rádios vivem dizendo que nada foi apurado e que não há nenhuma prova contra os atos da empresa. Na mesma linha de defesa o sócio, dono, proprietário e porta-voz da MSI diz nas edições de hoje (11/3) nos jornais: “investigada, nada ficou provado”. Ficamos assim: a MSI, criada há três meses e que trocou de sócios, nome e endereço por diversas vezes, alega a inexistência de uma sentença contra si como prova de que suas ações são legais.
Portanto, nesta lógica, só poderemos criticar os parceiros quando alguns estiverem presos ou deportados e os seus sócios condenados.
Nesta vulgar discussão, lembrei-me de Goebbels, ministro da propaganda alemã, quando surgiram as denúncias de existência de campos de concentração e eliminação de judeus, ciganos e eslavos pelos nazistas. Via tudo aquilo como evidente campanha contra o Reich, campanha desacompanhada de provas e, portanto, infundada. O tempo demonstrou que o relato dos perseguidos, o alerta dos opositores ao regime e o brado de alguns heróis eram verdadeiros. Não existiam processos, não havia julgamentos, nem sentenças, apenas o crime e os indícios de que estávamos envolvidos em uma tragédia. O próprio Papa João Paulo II, então um simples pároco da Polônia ocupada, em livro lançado há duas semanas (“Memória e Identidade”) alerta sobre o ocorrido: “A real dimensão do mal que grassava pela Europa não foi percebida por todos, nem sequer por nós que estávamos no centro daquela voragem.(...) É que os seus responsáveis faziam muitos esforços para esconder seus próprios crimes aos olhos do mundo”.
É sempre assim, quem viola a lei não anuncia que vai fazê-lo, nem tampouco proclama o prazo em que estará configurado o delito. Seria inóquo cobrar condenação de irregularidades nascentes e construídas de forma tão dissimulada. Mas seria um grave equívoco silenciar sobre elas, a pretexto de não haver sentenças ou condenados.
A MSI – nome fantasia do tal grupo - parte da premissa inaceitável de que seus investidores devam ser clandestinos, e de que seu dinheiro tenha surgido sabe-se lá de onde. Por isso, seus passos indicam problemas de toda espécie. Prometeram que não trabalhariam com empresas de paraísos fiscais: não cumpriram! Prometeram que toda remessa de dinheiro passaria pelo Banco Central brasileiro: não cumpriram! Prometeram liquidar os débitos do clube: não cumpriram!
Ao contrário, a empresa que já mudou e desmudou várias vezes, continua sem endereço definido, telefone ou secretária. Tudo substituído por uma caixa de correspondências. Quando fez remessas da Geórgia apareceu um Zaza Toidze, misterioso transeunte de Tbilisi, que remeteu de seu país US$2 milhões para o Corinthians.
Elegeram Argentina e Portugal as bases de suas contratações, e para esses países as remessas são feitas diretamente sem que o dinheiro passe pelo Corinthians. Quando fizeram uma contratação no Brasil, ainda que pequena, tiveram que usar o nome de um terceiro para efetuar o pagamento.
No mundo das finanças, onde a separação do lícito e ilícito é muitas vezes sutil, agem bem as instituições brasileiras ao não ficarem silenciosas. As investigações do Ministério Público, do Banco Central, da Polícia Federal, do Ministério da Fazenda e da imprensa fortalecem o país e conferem aos negócios a seriedade que eles merecem. Não devemos, como fazem alguns jornalistas, cobrar resultado imediato de investigações que, por sua natureza, são complexas e demoradas. Devemos aplaudir sua ação e a ausência de omissão destes órgãos, que não trocam a contratação de alguns jogadores pela essência do obscuro negócio. Nos crimes financeiros, e nos crimes políticos, os responsáveis procuram esconder as suas ações, como lembrou o Pontífice em seu recente livro.
A imprensa e as instituições públicas do Estado não devem e não podem esconder os indícios de irregularidades, ainda que sejam de difícil apuração e até de demorada conclusão.


-INVASÃO DA ÁREA

Entre os fatos mais extraordinários da MSI, destaca-se a contratação de jogadores da Argentina e de Portugal, com pagamentos que não passaram pelo Corinthians ou pelo Banco Central brasileiro. Mas não só isso causa espanto com a MSI. A invasão do vestiário após o jogo contra o São Paulo para cobrar o time, incursão esta efetuada pelo presidente, sócio, proprietário e porta-voz da MSI, configura-se como o mais puro ato de futebol de várzea. Faltou apenas o dito cujo mandar recolher as camisas para levar para casa enraivecido. Se continuar nesse ritmo, o dirigente será convidado a comandar o Tabajara. E o salário será bom.


-ENTRE GOLS E GOLES

Alguns jornalistas de programas esportivos, especialmente em televisão e rádio, vêm cobrando que a imprensa divulgue também os atos positivos da parceria, não se pautando apenas em críticas sobre origem de dinheiro etc. Entre goles e gols, afirmam que a MSI está movimentando o futebol e que isto é muito importante. Calma! Esta tendência de sempre ver o lado positivo das coisas, algumas vezes equivocada, a exemplo do caso MSI, trouxe-me a lembrança do professor de Direito Penal, em meu tempo de estudante. Numa situação assemelhada, um aluno procurava mostrar aspectos positivos em algo indefensável e o mestre alertou-o: “Do jeito que você está fazendo a defesa, você vai ver virtudes no nazismo. Hitler era vegetariano e ecologista, e isto não atenua a pena do crime que cometeu”.