Antonio Roque Citadini


A publicação, na última semana, do relatório do Ministério Público paulista a respeito da parceria Corinthians-MSI, trouxe confirmações e novidades. Contrariamente ao que afirmaram os envolvidos, como o próprio presidente da MSI, todas as irregularidades que vêm sendo divulgadas foram comprovadas. Talvez tenha sido esse o fato que levou tantas pessoas a um estado de reflexão profunda, quase sem reação. Quando o presidente, fundador, único acionista e dono da MSI disse que o relatório não tem provas, foi mais por reação mecânica do que por informação jurídica, ou convicção.

Vejamos apenas dois pontos do relatório:

1-Ao falar em lavagem de dinheiro, os Promotores apresentam um fato grave e indesmentível: US$2 milhões foram encaminhados ao Corinthians por uma pessoa desconhecida ou inexistente, denominada Zaza Toidze. Numa linguagem menos jurídica diríamos “através de um laranja”. Ora, enviar dinheiro de paraíso fiscal por “laranja” não é conduta de empresa séria e que está apenas em busca de vantagens tributárias;

2-No relatório muito bem detalhado, contendo inclusive informações de organismos internacionais de reputação inatacável, vê-se que a parceria tem investidores indefinidos e está cercada de um conjunto de “homens de negócios”, todos com larga ficha policial e condenações. Neste quadro aparecem os russos, georgianos e israelenses, todos comprovadamente envolvidos em um sem número de atividades irregulares e com ilicitudes condenadas.

É certo que concluísse o relatório de uma forma ou de outra, os envolvidos falariam a mesma coisa. O importante, no entanto, foi que um órgão público em pouco tempo, e com limitados recursos, efetuou um belo trabalho de investigação, dando mostras de que o país tem instituições, e que elas funcionam para o Estado e para a sociedade.


PISOU NA BOLA

O técnico Passarella tem demonstrado uma grande capacidade de trabalho que, para aqueles que não acreditavam em seu bom desempenho – entre os quais não me incluo, pois nele sempre acreditei -, pisou na bola ao falar sobre o relatório dos Promotores, no dia seguinte à sua publicação. Disse aí nosso técnico, num campo onde ele não atua com a mesma competência com que atuava como jogador e treinador, que Kia deveria processar as pessoas pelo que estão falando dele. Ora, nosso Kaiser, o Sr. Kia não processará ninguém, pois sabe dos negócios que faz. Se ele não soube explicar quem é o Zaza Toidze, que remeteu US$2 milhões para a empresa dele, mais dificuldades terá para esclarecer as contratações de jogadores feitas por preços inflados.
Como técnico, Passarella é nota dez; como jurista, não passaria no exame de ordem.


SERÁ DOM SEBASTIÃO?

Dentre as revelações ocorridas nas últimas semanas, e que não encontram lógica, está o tal convênio de futebol juvenil do Corinthians com o Boca Juniors, no valor de US$ 2 milhões. A MSI levantou US$2 milhões com investidores e repassou para um contrato que, de fato, é uma simulação; não existe. Qual será o retorno para os investidores desse contrato? Ah, se essa empresa tivesse acionistas, e se fossem sérios, como seriam informados de um falseamento contratual como este?
Outra preocupação, que veio com a edição de abril da revista Caros Amigos, foi a de que o fórum para questões litigiosas entre Corinthians e MSI, fruto dos contratos de jogadores, seria Londres.

Isto contraria o que foi decidido em dezembro de 2004, no Conselho Deliberativo, no sentido de que todas as disputas judiciais ocorreriam em São Paulo. Para quem tem não poucos problemas este é mais um que se avizinha.
Por falar em problemas, os tais US$20 milhões que viriam para pagar dívidas e que têm sua chegada anunciada - e sempre adiada - desde dezembro sob alegação de motivos mais estranhos, continuam na mesma (procurando data para anunciar sua chegada). Assim como Portugal aguarda há tanto tempo Dom Sebastião, nós aguardamos a vinda desse dinheiro!


A VER NAVIOS NO SATIRICON

No Rio de Janeiro, dois dias antes da divulgação do relatório dos Promotores paulistas sobre a parceria, o presidente do Flamengo, vários diretores e ex-presidentes, receberam o Sr. Kia Joorabchian para um almoço no restaurante Satiricon. Nada mais próprio para uma conversa em que apareceram encantos e aberrações. Diga-se que o presidente Márcio Braga, com sua histórica experiência, não deve ter acreditado em quase nada do que o ilustre iraniano tanto falou. Fato que não ocorreu com os ex-presidentes Veloso e Hélio Ferraz, que se encantaram com as idéias e audácias do “new businessman”. Uma pena! Muitos se lamentaram de não ter conhecido o Sr. Kia antes, mas, creiam, sempre é tempo para conhecê-lo. O ex-presidente Hélio Ferraz poderia indagar do “presidente” da MSI sobre seus amigos soviéticos. Aí saberia que, entre os nomes que circulam nos negócios de futebol de Kia, vários são proprietários de navios na Rússia, Geórgia e Ucrânia. Nas privatizações ocorridas no pós-URSS, alguns dos mais próximos interlocutores de Kia tornaram-se donos e “kzares” da marinha mercante russa. Poderiam alongar-se na conversa com Hélio Ferraz, afinal este é um príncipe da Sunamam brasileira, e assim se conhecerem com maior profundidade.


2005/04/19