Antonio Roque Citadini

 

Os quase cem anos de vida de um clube de futebol como o Corinthians oferecem matéria-prima para estudiosos de ciências sociais de diferentes áreas, como historiadores, sociólogos e até mesmo economistas, fazerem bons trabalhos. Criado por gente humilde no então bairro periférico do Bom Retiro, quando o futebol era um esporte de elite, conseguiu sobreviver com dignidade e tornar-se um clube de prestígio internacional. Talvez esteja na origem popular o combustível de sua pujança.

Diferente dos clubes da época, vinculados às raízes européias dos imigrantes que os formavam, os fundadores do Corinthians rejeitaram a condição de clube de colônia. Constituído majoritariamente por italianos e portugueses, abriram as portas para imigrantes judeus, árabes, armênios e até quis inscrever no seu time um jogador negro, Davi, pretensão barrada pela liga oficial.

Na década de 30 acolheu os nordestinos que vieram em massa para São Paulo. Esse ecletismo está presente nas alcunhas dadas ao clube: time de carroceiros, no início, porque o presidente, Alexandre Magnani, dirigia tílburi; e sucessivamente time de baianos, de pretos, e, pasmem, de maloqueiros. Ao longo de sua história o time continuou inovador. Em suas fileiras nasceu um movimento esdrúxulo para o ambiente do futebol, a Democracia Corintiana.

Os corintianos mais jovens não imaginam o apelo que a palavra democracia tinha na época, no ocaso da ditadura militar. O direito de greve fora restabelecido na marra, a Lei da Anistia permitira a volta dos líderes políticos exilados. O país vivia em ebulição, questionava-se tudo. Nada mais natural que as formas de gestão do esporte mais popular entrassem no jogo, especialmente no clube da massa.

Na essência, a Democracia Corintiana pretendia mudar as relações de trabalho no futebol, o fim das concentrações e a participação dos jogadores nas decisões. Os limites dessa participação não estavam claros e provocaram reações, mesmo no Corinthians. O movimento só teve grande repercussão porque os jogadores que o encarnaram eram dignos de respeito também dentro do campo. A começar por Sócrates, um dos maiores craques entre os que vestiram a camisa do Corinthians.

Vindo do Botafogo de Ribeirão Preto, formado em medicina, culto, foi recebido carinhosamente, chamado Doutor Sócrates com sincera reverência pelos torcedores. Jogador frio, foi capaz de se impor à torcida e lhe ensinar como melhor incentivar o time, pondo fim às correrias irracionais em direção ao gol, ao sabor dos gritos da platéia. Por sua liderança foi alvo de críticas dentro e fora do clube, acusado de rebeldia, de pregar a anarquia no futebol, como a liberdade de fumar e beber. Na realidade, as críticas deviam-se mais às suas posições políticas e menos às eventuais mudanças no futebol.

A profissionalização das relações de trabalho no futebol era o verdadeiro alvo. Sócrates disputou 297 jogos pelo Timão e fez 172 gols. Permanece no coração do torcedor corintiano. Outra figura de relevo no movimento foi Casagrande. Diferente do Doutor, formou-se nas categorias de base do clube e chegou ao time principal em 1981, quando a Democracia Corintiana estava em ascensão.

Rebelde, ousado, irreverente, encontrou ambiente propício no movimento. A torcida o adorava, chamava-o de Casão e ao lado de Sócrates formou uma dupla inesquecível no ataque corintiano, responsável pelas conquistas dos campeonatos paulistas de 1982/83. Casagrande foi o artilheiro da competição em 82; jogou 256 partidas pelo Timão e marcou 103 gols.

Vladimir foi outro que contribuiu para tornar real a Democracia Corintiana. Impossível separar jogador de clube. Nasceu nas divisões de base, cresceu no time titular e é o recordista em jogos pelo Timão: 803 partidas. Com a credencial de mais amado pela Fiel contribuiu para dar legitimidade ao movimento e assim fazê-lo vitorioso.

Seu aval moral estava escudado em uma folha de serviços de craque. Lateral esquerdo, marcava com precisão, apoiava de forma eficiente e quando havia oportunidade finalizava. A Democracia Corintiana é um movimento muito citado e pouco avaliado. Na ocasião enfrentou oposição de dirigentes, jogadores, jornalistas e das torcidas organizadas que não combatiam a ditadura como hoje gostam de se vangloriar de o terem feito. É natural.

O conservadorismo e conformismo impregnam todas as sociedades, em maior ou menor escala, em diferentes épocas. Também houve receptividade ao movimento da parte de dirigentes, jogadores e jornalistas.

Mas o movimento só ficou na história com a imagem positiva graças ao extraordinário time que o encarnou, o inesquecível Timão do Sócrates, Casagrande, Vladimir, Zenon, Biro-Biro e Juninho e outros craques mais...

 

(Reprodução)

O time da Democracia Corintiana


(O Expresso, Capão Bonito/SP, 6/9/2003)