Antonio Roque Citadini

As dificuldades por que passa o futebol brasileiro são bastante conhecidas e muito debatidas. As novas leis que vêm sendo implementadas nos últimos anos (Leis Zico, Pelé, Maguito, Estatuto do Torcedor) procurando redesenhar a própria estrutura do futebol brasileiro.


Muitos advogam uma mudança radical no modelo estrutural do futebol, onde clubes se transformariam em empresas. Outros defendem a manutenção dos clubes sem qualquer mudança, ou com pequenos ajustes. Outros, ainda, como eu, têm defendido que os clubes devem se modernizar, transformando-se para manter o sistema de clubes e adicionando os componentes de transparência, publicidade, auditoria e responsabilidade de gestão. Esta discussão não está terminada e pode ter como subsídios o que está ocorrendo num dos centros do futebol-empresa, que é a Itália.


O jornal Corriere della Sera desta última segunda-feira, dia 16, traz um retrato alarmante do "calcio" italiano.


Depois de a Liga italiana ter feito uma solene promessa de correta gestão econômica, a ser exigida de todas as equipes para participar de campeonatos, chega-se ao final da temporada com uma triste realidade. Caso a Liga aplicasse aos clubes as regras preestabelecidas, não haveria campeonato, pois nenhum clube estaria em condições financeiras e contábeis de partir para nova temporada. Por exemplo, a exigência de uma relação entre Patrimônio Líquido/Ativo Patrimonial não inferior a 0,5 foi por água abaixo, porque nenhum dos clubes tem condições de cumprir este dispositivo do estatuto. O que fez a Liga? Fechou os olhos diante da débil situação dos clubes e disse que isto será exigido na temporada de 2004-2005. Assim, a quebra que já ocorreu com a Fiorentina agora sucederia com todos.

A promessa para 2004-2005 é de que o clube só poderá gastar com salários 60% de sua receita. Neste momento esta exigência atingiria a todos, pois grandes e pequenos não têm condições de cumpri-la.


O mais grave, no entanto, como nos informa o Corriere é que “o mundo do futebol conquistou o primeiro posto no grande exército da evasão fiscal”. Além das dificuldades contábeis e deficiências no pagamento de salários, as sociedades futebolísticas italianas, no caso todas são empresas, acumulam débito com o fisco de milhões e milhões de euros. O fisco italiano fechou os olhos e prometeu que nas próximas temporadas isso vai mudar. Assim, o princípio propagandeado pela Liga de que só disputaria campeonatos quem estivesse em ordem com o fisco foi apagado, aplicando-se também para a temporada de 2004-2005. O mesmo sucede na área da previdência, na qual os clubes, inclusive os grandes da série principal, acumulam dívidas e dívidas.


Isto tudo ocorre depois de o governo italiano ter aprovado lei que permitiu a maquiagem dos balanços, com o parcelamento em até 10 anos das perdas derivadas de desvalorizações de contratos com atletas. Este benefício, na chamada Legge spalma-debiti, já causou um "presente" de 800 milhões de euros para a sociedade esportiva. Sem a lei aprovada, conforme bem esclareceu o jornalista Vittorio Malagutti na matéria do Corriere della Sera, seria o “fallimento automatico per tutte le squadre”.


Outro grave acontecimento na Itália é o generalizado atraso no pagamento de salários aos jogadores, muitos dos quais sendo forçados a abandonar seus clubes ou o futebol.


Ficamos assim: se forem aplicadas as regras os clubes não terão condições de fazer campeonatos. Não faltou nada: atraso no pagamento de salários, ajuda do governo, maquiagem de balanços, nem fraudes ou omissão do Fisco.
Devemos refletir sobre tais fatos, neste momento em que discutimos a restruturação do futebol brasileiro; afinal, mudar os clubes para o sistema de empresas não garante fim dos débitos com o Fisco, e nem tampouco débitos salariais e previdenciários. O caso italiano mostra que as empresas, quando não são adequadamente fiscalizadas, cometem idênticos erros de clubes sem fiscalização.


Por último, precisamos destacar que esta situação não é exclusiva da Itália, mas se espalha por quase todos os países da Europa.


LE GRANDI

 

Datti in milioni di euro

Stipendi su ricavi

Monte stipendi

Ricavi

Ammortamenti

Valore calciatori

JUVE

73,70%

129,3

175,3

68,2

220,5

MILAN

76,00%

118,3

155,6

72,2

269,6

INTER

106,30%

133,6

125,6

105,9

300,7

LAZIO

106,50%

119,1

111,8

75,4

272,1

ROMA

68,70%

94,9

138,1

79,3

165,5

 


LE PICCOLE

 

Datti in milioni di euro

Stipendi su ricavi

Monte stipendi

Ricavi

Ammortamenti

Valore calciatori

CHIEVO

69,40%

15

21,6

5,4

19,8

LECCE

107,10%

21,2

19,8

13,3

33,8

TORINO

102,40%

29,4

28,7

21,4

66,6

BRESCIA

67,60%

18

26,6

10,6

28,5

ATALANTA

85,00%

22,2

26,1

10,4

35,7

(Apud: Vittorio Malagutti,“Un anno per sanare i conti del pallone”,Corriere della Sera, Sport, 16/6/2003, p. 27)