Antonio Roque Citadini

O futebol brasileiro caminha para crescente profissionalização. Os clubes, mesmo sem adotar a formula mágica da transformação em empresas, dão-se conta de que a qualidade de seu produto é atestada por um tipo de avaliação transparente, de indiscutível veracidade: os olhos atentos do espectador ou telespectador.


Esse último está destinado a papel preponderante por sua abrangência, muito além dos limites do estádio, cidade, estado e mesmo país. Devo reconhecer que a estagnação e até retrocesso da economia brasileira – PIB negativo em 2003 – contribuiu para a mudança. Clubes de elite já tinham estabelecido teto salarial e rejeitado contrato em moeda estrangeira para atletas que voltavam ao país. O passo adiante é a melhoria das receitas e a TV, como ocorre na Europa, torna-se a principal fonte.


A princípio sozinho, o Co-rinthians defendia remuneração da TV, nos novos contratos, com base na audiência pública de cada um. A nova diretoria do Flamengo também pensa assim e seu presidente, Marcio Braga, é dos mais comba-tivos. O São Paulo, clube que está entre os cincos líderes de audiência, apóia. Com o sistema atual os clubes de elite recebem proporcionalmente menos. Na prática subsidiam os de menor torcida.


O “pay-per-view”- pague para ver – e o Atlas da Exclusão Social, recentemente divulgado, vieram mostrar que a distribuição de renda no Brasil é das mais desiguais. O Atlas, com base nos censos de 1.980 e 2.000, mais a PNDA – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, mostra que nesse período o numero de famílias consideradas ricas aumentou de 1,8% para 2,4% do total e que tais famílias estão concentradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.


A participação dessas famílias na renda nacional subiu de 20 para 31% nos últimos 20 anos. O mapa do futebol pago, segundo a Globosat, é quase igual. Os clubes campeões de audiência são Corinthians (16), Flamengo (14), Vasco (14), Palmeiras (9), São Paulo (8), Grêmio (5), Atlético MG (4), Cruzeiro (3), Santos e Inter RS, ambos com 2% das assinaturas. No Atlas, São Bernardo do Campo está na frente de Porto Alegre e Curitiba, Santo André e Guarulhos na frente de Salvador, Fortaleza e Recife. Os números absolutos tornam mais gritantes a desproporção: para 443.462 famílias ricas da cidade de São Paulo, existem 15.182 famílias em Salvador e 12.615 em Recife.


Nada contra Bahia e Vitória porém não há razão para a TV pagar mais por seus jogos que pelos de Corinthians, Flamengo, Vasco, São Paulo ou Atlético Mineiro. Há mil maneiras de reduzir as desigualdades e por isso mesmo o futebol profissional, que no passado, sem receita de TV, tinha os ingressos tabelados pela SUNAB, não pode aceitar o papel de financiador desse esdrúxulo socialismo.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 17/4/2004.