Antonio Roque Citadini


A imprensa dá grande destaque à situação econômica dos clubes de futebol profissional, em particular dos mais populares, caso do Timão, alvo principal. A julgar pelo tratamento dado às matérias em alguns veículos, parece que a crise nos clubes é uma exceção no atual panorama econômico.

As empresas, inclusive jornais, revistas,rádio e tv, estariam, contratando e investindo como nunca, graças ao excelente faturamento. O futebol seria a exceção. O torcedor que se vê obrigado a contar os tostões para compra do ingresso mais barato sabe que não é bem assim.

A atual crise, para nós corintianos, não tem a dimensão das que enfrentaram os nossos antecessores. Clube criado e mantido por gente pobre, conhecia uma única espécie de abundância, a de pepinos. Tudo era difícil, a começar pelo simples treino, o que implicava arranjar dinheiro para comprar bola, alugar um campo, conseguir chuteira emprestada. Sim senhor!

Lavar o uniforme era outra proeza, às vezes de responsabilidade dos próprios atletas. Mas homens da têmpera de Guido Giacominelli, presidente de 1921 a 1925, venceram todos os obstáculos e assim forjaram o que hoje se conhece como Nação Corintiana. O camponês italiano Guido Giacominelli serviu ao Corinthians em múltiplas funções. Foi diretor de futebol, vice-presidente, presidente e técnico a um só tempo, um colaborador infatigável. Na dupla função conquistou o primeiro tricampeonato paulista, 1922-23 e 24.

Ficou na história sua luta contra tentativa de suborno de atleta corintiano, na década de 30. Um diretor do Palestra Itália, por intermédio do jogador Abate, tentou subornar Jaú, do Corinthians. Giacominelli levou o caso à APEA, a entidade responsável pelo futebol e o dirigente palestrino foi punido com suspensão e Abate, o atleta, expulso do esporte.

Os exemplos de Giacominelli e de Alexandre Magnani, os pioneiros, foram imitados ao longo da trajetória do Corinthians. Quem nasceu pobre, na periferia ( o Bom Retiro da época), cresceu em meio a revoluções, guerra e crises econômicas, tem os anticorpos necessários para enfrentar qualquer virose. É assim o Corinthians.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 29/11/2003.