Antonio Roque Citadini


Três jogadores do Corinthians que atuaram em diferentes fases da vida do clube tiveram em comum, além da condição de craque, a de protagonizarem episódios insólitos que dificilmente serão esquecidos pelos torcedores, não importa a distância que os separem dos fatos ou lendas. É o caso de Neco, Luizinho e Edílson. Neco, destaque nas primeiras conquistas, de 1910 a 1920, por seu arrojo e valentia foi o protótipo do que o torcedor espera do jogador corinthiano. A rigor não precisava da camisa para se identificar como defensor do alvinegro.

Ela confundia-se com a própria pele, nela estava incrustada. Por ela brigava com quem quer que fosse, em qualquer terreno. Foi o que aconteceu em jogo contra o Palestra Itália, em 1920, em represália à atitude parcial do juiz Odilon Penteado do Amaral, por ignorar as faltas dos palestrinos, mesmo as verdadeiras agressões e mostrar-se impiedoso com os jogadores corinthianos. Inconformado, Neco puxou a cinta que usava no calção e ameaçou surrar o juiz.

Para os corinthianos presentes ou não no estádio, a surra se consumou. O próprio Neco disse que não, que bastou a ameaça. Como ainda não existia televisão, é impossível eliminar as dúvidas. Para os corinthianos basta a versão, que é mais importante que o fato, segundo o político mineiro Gustavo Capanema.

Luizinho é outro craque cuja história se confunde com a do clube. Pequenino, atrevido, era um driblador extraordinário. Marcou muitos gols e de seus pés saíram passes primorosos para outros gols e vitórias importantes do Corinthians. Como Neco, um episódio marcante em sua carreira não deixou registro visual, só oral, como ficou na lembrança dos torcedores.

Em jogo contra o Palmeiras (sempre o velho rival), depois de dar uns dribles desconcertantes no argentino Luiz Villa, sentou-se na bola diante do adversário, para delírio da torcida. Na versão de Luizinho, mais amena, ele teria escorregado e, ao cair sobre a bola, dera a impressão de se sentar sobre a esfera. Mas a versão que importa, a consagrada, é a primeira.

Edílson, outro herói alvinegro, teve em comum com Neco e Luizinho episódios inusitados e a vítima, o Palmeiras. E logo em uma final de campeonato, o Paulista do ano 1999. O Corinthians vencera a primeira partida da decisão (3x0) e poderia perder a final por até dois gols de diferença, ganhando o título, e, assim, já se considerava campeão.

O jogo foi precedido de intensa guerra de nervos, com provocações dos dois lados. No finzinho da partida, com o título garantido para o Corinthians, os palmeirenses já desiludidos, Edílson recebeu uma bola na lateral do campo e, em lugar de avançar ou passar, fez seguidas embaixadas, caprichando na coreografia...

Os atletas palmeirenses consideraram a dose exagerada e partiram para cima de Edílson e o jogo terminou em pancadaria. Sua foto com a bola sobre a nuca é relíquia de todos os corinthianos.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 25/10/2003.