Antonio Roque Citadini


Um balanço isento do centenário futebol brasileiro sem dúvida mostrará saldo positivo. Nenhuma outra atividade alcançou tal grau de desenvolvimento entre nós, a ponto de colocar o Brasil em primeiríssimo lugar no mundo. Nossos principais adversários, para usar um parâmetro matemático, estão há oito anos (duas copas) à nossa retaguarda.

Esse desempenho é fruto de uma organização, clube, ora vilipendiada e que muitos desejam extinguir em favor da panacéia clube-empresa. Aos que discutem comigo essa questão, costumo perguntar quais os bancos e grandes empresas contemporâneos do Corinthians que sobreviveram. Sem pesquisa exaustiva é impossível responder.

Se o futebol é um grande negócio, seu combustível é a paixão. O também quase centenário Corinthians pode servir de exemplo. Seus fundadores eram operários, artesões, gente pobre. Souberam atrair sócios e admiradores. Entre eles intelectuais como Alcântara Macha do e comerciantes como Alfredo Schuring. Em 1918 coube a Alcântara Machado proporcionar o terreno para o primeiro estádio do clube. Schuring, torcedor que não ia aos jogos, contribuiu com a venda de material de construção a preço de custo. E não parou aí. Mais tarde, quando o clube estava sob ameaça de perder a Fazendinha, por não pagar o saldo devedor da compra, o então presidente, Felipe Collona, recorreu ao Dr. Wladimir de Toledo Piza e este não perdeu tempo: foi à casa de Alfredo Schuring e voltou com os 227 contos de reis, uma fortuna na época, para saldar o débito com os credores Nagib Salame e Assad Abdala. Já imaginaram se o clube tivesse recorrido a um banco...

Alfredo Schuring não se limitou à posição nobiliárquica de benemérito do clube. Em momento de crise no Corinthians, logo no início do profissionalismo, concordou em assumir a presidência.

Sem recursos para contratações ou até mesmo para segurar seus melhores jogadores o clube fez uma campanha bisonha e toda a diretoria renunciou. Passada a tempestade, o clube corrigiu a injustiça e deu o nome de Alfredo Schuring para a Fazendinha.


(Reprodução)


O presidente Alfredo Schuring.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 20/9/2003.