Antonio Roque Citadini


Nem nos tempos da guerra fria a viagem do Corinthians a Moscou receberia o tratamento que lhe foi dado pela imprensa esportiva. Quando Moscou, capital da União Soviética, era o centro irradiador do comunismo, o esporte russo, especialmente o futebol, merecia tratamento compatível com sua importância.


Tal retrocesso talvez seja devido à raridade das excursões de clubes brasileiros à Europa, conseqüência dos calendários apertados das competições oficiais, o que não acontecia no passado, como nos anos 60-70. A coincidência do recesso em nosso Campeonato com a semana de comemoração dos 856 anos da fundação de Moscou tomou possível ao Corinthians reavivar o esquecido intercâmbio.


Torço para que a prefeita Marta Suplicy faça uma festa de comemoração dos 450 anos de São Paulo igual ou mais grandiosa que a de Moscou. Nossa cidade merece. A velha capital russa, durante a primeira semana de setembro, toda embandeirada, foi só alegria: concertos em praça pública, danças folclóricas, desfiles, esportes, tudo que o moscovita adora. E o Corinthians ocupou lugar de destaque nessa programação, alvo de tratamento fidalgo das autoridades, imprensa, inclusive TV, culminando com os aplausos da torcida moscovita no belo estádio do Satum. Porque o jogo agradou à platéia.


A Rússia atual conserva uma prática da União Soviética no futebol, não muito diferente da adotada em outros países europeus capitalistas. A dos clubes de empresa ou com patrocínio estatal. E o caso do Saturn, clube da Aeronáutica e que também tem apoio do Estado de Moscou.


No jogo de domingo, o que menos importava era o resultado, diziam nossos anfitriões. Tratava-se de uma festa. Nem por isso os brasileiros deixaram de se empenhar, na tarde de verão de cinco graus, cientes de que tinham a responsabilidade de proporcionar um bom espetáculo aos moscovitas. O juiz e um bandeirinha que "esqueceram" o script foram punidos com as gargalhadas da torcida às suas decisões mais esdrúxulas.


Da nossa viagem ficou a lição de que a Rússia (como a China) não pode ser ignorada sob nenhum aspecto. Principalmente no futebol, o esporte de maior público e, por isso mesmo, o campeão nos negócios de entretenimento.


(Reprodução)

A comitiva alvinegra em Moscou.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 13/9/2003.