Antonio Roque Citadini

Encontra-se em mãos do presidente Lula, para sanção ou veto, uma nova MP de futebol votada recentemente pelo Congresso. Está em jogo o futuro do futebol e dos clubes no Brasil, no auge do confronto entre defensores de três modelos de organização do esporte: alguns defendem a manutenção do atual modelo de clubes; outros preferem adotar o modelo de clube-empresa; e muitos optam por um modelo de clube adaptado à nova situação do futebol, de um dos maiores negócios de entretenimento.

Antes de entrar nesta polêmica, permito-me falar de outra, de importância vital, a do destino do sistema de saúde pública do Brasil. Originário do INPS, hoje INSS e SUS, na década de 1960 o sistema de saúde e previdência do Brasil adotou uma fórmula talvez única no mundo: os trabalhadores da ativa pagam para sustentar um sistema de saúde universal, que atende a todos, trabalhadores contribuintes e desempregados. O caráter solidário do sistema é o seu grande diferencial, seu ponto alto. Nesse período o sistema de saúde publica generoso, como seria natural, acumulou virtudes e vícios.Os críticos do INPS não esquecem os desvios de verbas, contratos superfaturados, cirurgias feitas somente no papel, etc. Outros criticam as filas nos hospitais, o inaceitável tratamento de doentes em macas nos corredores, as justas reclamações de usuários, contribuintes ou não. E advogam sua extinção. Como no futebol, querem uma mudança radical: um sistema de planos de saúde para os que pudessem pagar e os demais, os mais pobres, seriam atendidos em hospitais públicos. O governo então se desvencilharia de um problema que hoje fere profundamente o ex-INPS: a diminuição de numero de trabalhadores registrados, e o aumento da mão-de-obra informal, com a conseqüente queda da arrecadação. Para tapar o buraco o governo criou a CMPF, mas o dinheiro teve outro destino. Mesmo com esta enxurrada de criticas pelas imperfeições e desvios, creio que o modelo INPS é o mais justo e mais de acordo com o dever de solidariedade social. Deve ser mantido e revigorado, com o Estado colocando verbas orçamentárias de outras fontes até que a economia retome o crescimento e a arrecadação dos trabalhadores da ativa e das empresas volte a equilibrar o sistema. Os desvios, as roubalheiras, corrupção ou falsificação não devem servir de justificativas para virarmos de ponta-cabeça um modelo solidário tão necessário ao Brasil em sua condição de país pobre.

Volto aos clubes. O modelo do futebol brasileiro sustenta-se em clubes, formados com finalidades múltiplas, para proporcionar lazer e esporte a seus associados. Muitos evoluíram a ponto de criar grandes times profissionais. Com erros e acertos, os clubes juntaram jogadores, torcedores, empresas, organizaram campeonatos, federações, e deram o status que o futebol brasileiro possui e é conhecido em todo o mundo. O lado bom foi a construção de times fantásticos, a revelação de jogadores notáveis, até mesmo gênios, e conquistas que inigualáveis por qualquer outro país. O lado ruim fica por conta de incontáveis más-gestões nos clubes, escândalos, exploração de jogadores e campeonatos mal organizados. O que fazer para consertar o que estiver errado? Agir, como desejam certos críticos do INPS, sepultar um modelo e construir outro? A mudança radical no futebol, sonho de alguns, é a transformação de clubes em empresas.

Tal modelo, o clube-empresa não tem garantia alguma de resultado positivo. Em paises ricos alguns poucos clubes dão-se bem, como Manchester United e Arsenal. Outros vivem situações de penúria tão nossas conhecidas. O modelo de empresa não elimina sequer os vícios que as algumas agremiações brasileiras têm, como desvios ou negociatas. Invasão de dinheiro de origem duvidosa e gestão de administradores inescrupulosos tem sido freqüente em clubes europeus. É inegável que assim como o INPS os clubes precisam mudar. Tanto lá quanto cá defendo que o modelo vigente deve ser reformulado e revigorado. A atividade de futebol, hoje claramente voltada para o mercado, deve ser separada daquelas inerentes aos clubes sociais, com publicação de balanços periódicos, auditoria e transparência nos atos dos administradores.

Tal mudança é revolucionária, embora não jogue fora a história dos clubes, no geral realmente digna de culto. Esse caminho levará os clubes a renovar e ampliar sua contribuição para a grandeza do futebol brasileiro.A contra-partida virá, como no passado e no presente, dos exigentes amantes do futebol brasileiro.



O Expresso, Capão Bonito/SP, 3/5/2003.