Antonio Roque Citadini


A relação do governo com o esporte no Brasil padece de um defeito grave, o desconhecimento do assunto pelo governo. Em primeiro lugar, quando se fala em esporte no governo, o substantivo correto é futebol. O poder público, no Brasil, pouca ou nenhuma atenção dá aos demais esportes, salvo para homenagear equipes campeãs, qualquer que seja a modalidade e assim tentar obter dividendos político-eleitorais. Só acreditarei no interesse do governo pelo esporte quando presidente, governadores e prefeitos se juntarem para instituir no Brasil o ensino básico em tempo integral e a educação física for realmente incorporada ao dia a dia das escolas.Nada demais para a 12a. economia do mundo. E com os bancos mais lucrativos do planeta.

Quem é realmente responsável por êxitos e fracassos do futebol brasileiro? O poder público? Evidente que não. Os clubes.Bem ou mal o futebol brasileiro é o que é, cinco Copas do Mundo e mais uma infinidade de títulos importantes, graças aos clubes.E ao futebol o Brasil deve o lado positivo de sua imagem lá fora. Em retribuição o governo federal durante muitos anos tabelou o preço dos ingressos do futebol. Isso mesmo. A Sunab tabelava ingresso de futebol.

A MP do futebol é contraditória. Ao lado de medidas justas, como a que obriga os clubes a publicar balanços auditados, o que favorece a indispensável transparência; e a que resolve a questão do direito de imagem, tal qual a Lei Pelé se omite na relação atletas-empresário. Acabou o Passe para os clubes mas os atletas tornaram-se escravos de empresários e procuradores. Contratos leoninos, assinados por pais de atletas, pessoas de boa fé, pobres e iletradas, quando os filhos ainda estão nas escolinhas dos clubes, valem para o resto da vida. Por que o governo não intervem nessa relação contratual? Qualquer empresário mediano tem sob controle mais atletas que muitos clubes da elite do nosso futebol.

O governo não se diz empenhado em abolir o trabalho escravo no Brasil, como aliás é exigência da OIT, agência da ONU para as relações de trabalho?


O Expresso, Capão Bonito/SP, 01/03/2003.