Antonio Roque Citadini

Jornais, rádio e televisão mostraram a homenagem do Corinthians ao seu mais famoso torcedor, o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, na última terça-feira. Foi um gesto nobre do Clube, não simples ato protocolar. Ou de costumeira bajulação, da qual é muito difícil alguém se livrar, na posição atual de Lula.

Quem viu as imagens notou que o presidente a recebeu como verdadeiro torcedor e ficou realmente feliz. Igualmente D. Marisa. A Camisa 13 do Corinthians foi dada a quem a merece pelo lúcido (no caso) técnico Alberto Dualib. Faz parte do receituário político, para a conquista de voto, a adesão a um clube popular, mesmo que o político jamais tenha ido a um estádio ou jogado uma pelada na infância.

Lula fugiu à regra.. Sua inclinação pelo Corinthians é realmente um caso de amor. Menino, ao chegar a São Paulo, primeiro morou em Santos, e o Santos Futebol Clube vivia uma grande fase e logo arrebataria multidões com o milagre Pelé. Mas o menino Lula optou pelo Corinthians.

Por que? Provavelmente por causa do prestígio do clube entre os mais pobres e Lula era um deles. De outro modo seu caminho natural seria torcer pelo Santos. A paixão que nasceu na infância, cresceu na adolescência, persistiu na maturidade.

Está gravado na Globo um depoimento do carcereiro do DOPS que cuidava da cela onde se encontrava preso o líder sindical Lula, durante greve que paralisava o ABC nos Anos de Chumbo. No geral, bom comportamento. Mas se havia jogo do Corinthians, ai dos carcereiros se não dessem um jeito de mostrar a partida na cela onde estava o rebelde Lula!

Presente à solenidade no Palácio do Planalto pude testemunhar que o presidente Lula gosta, conhece e vive futebol, como é natural no seu meio. E como torcedor engajado não se furtou de comentários sobre o desempenho do Corinthians com o “companheiro” Dualib.

Mais: na condição de recém nomeado Conselheiro, quis saber imediatamente quais seus direitos e deveres, daí ter perguntado se teria direito a voto. Um bom começo, sinal de que pretende encarar sua posição no Clube como algo mais que honorífica. Melhor justificativa para a homenagem não pode haver.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 08/02/2003.