Antonio Roque Citadini


Quase nada escapa à ação do estado, ou melhor, dos detentores do poder, em qualquer sociedade. O esporte, especialmente um esporte de massa como o futebol, muito menos.

No passado, quando a força física era fator decisivo nas contendas, o poder dava grande atenção à educação física e à prática do esporte. As mudanças na arte da guerra refletiram-se também no esporte.

As vitórias nas competições esportivas ganharam status equivalente às consegui-das nos campos de batalha. Durante a guerra fria os Estados Unidos lideraram um boicote às Olimpíadas de Moscou (o Brasil não aderiu, ao contrário de Argentina e Chile) e a União Soviética fez o mesmo nas Olimpíadas de Los Angeles.

Entre nós o esporte demorou a despertar a atenção do governo. Em 1932, os atletas que iriam a Los Angeles representar o Brasil nos Jogos Olímpicos, tiveram que vender café para custear a viagem. Infelizmente as cotações estavam em baixa e em conseqüência poucos puderam viajar.

Mas Getúlio Vargas cedo descobriu as virtudes do esporte e criou a Confederação Brasileira de Desportos, CBD, que teve o futebol como carro chefe. Quando o Brasil entrou na guerra contra o Eixo (Alemanha-Itália-Japão), o conflito atingiu em cheio nosso futebol.

Alguns clubes tiveram de mudar de nome (o Palestra Itália virou Palmeiras) ou foram dissolvidos, e os estrangeiros afastados da direção dos clubes, o que atingiu o Corinthians. Seu presidente, em 1941, era o imigrante espanhol Manuel Correcher. Foi afastado e assumiu seu lugar o capitão do Exército Airton Salgueiro de Freitas.

Corintianos e esportistas em geral ficaram revoltados com a violência. Correcher de fato travava uma guerra pela conquista de títulos para o Corinthians e em sua gestão o time foi tri-campeão, com as vitórias em 1937-38-39.

A Espanha, onde nascera, era neutra embora o ditador Franco tivesse simpatia pelo Eixo. Mesmo sob intervenção o Corinthians foi campeão em 41 e vice nos dois anos seguintes. Em princípio sou até favorável. Essa intervenção deveria se limitar às questões substantivas.

Por exemplo, a proteção aos meninos que praticam o esporte e são duplamente esquecidos: como crianças não têm onde jogar, pois sumiram os campinhos de várzea; como trabalhadores tornaram-se escravos de empresários e não raro são exportados para a Europa em condições parecidas com a dos africanos no passado.

O Expresso, Capão Bonito/SP, 21/09/2002.