Antonio Roque Citadini

A festa acabou. Enquanto alguns ainda comemoram outros procuram tirar proveito da magnífica vitória. E a bola voltou a rolar em Belém e Teresina, para consagrar o Campeão dos Campeões. Longe dos gramados, em Brasília, outra disputa poderá representar para o futebol brasileiro vitória tão importante quanto a do Japão ou derrota capaz de causar frustração equivalente à da temida antecipação da viagem de volta dos canarinhos.

O futebol pentacampeão do mundo, fora do gramado, assemelha-se demais ao de 1931, quando aqui esteve um empresário do Lázio, malas cheias de dinheiro e levou consigo para jogar na Itália 39 craques. O Corinthians, tri-campeão paulista (28-29-30), o admirado e invejado Esquadrão Mosqueteiro, foi a principal vítima, perdendo nove jogadores, entre eles Del Debio, Demaria e Filó.

A investida italiana tinha propósito político. Mussolini, a princípio inimigo do futebol, um esporte estrangeiro, pior, de inglês, não conseguiu impor seu preconceito e para redimir-se tornou-se o grande promotor do calcio. Como a Itália seria o país sede da Copa do Mundo de 1934, decidiu formar uma “nacional” imbatível e para isso importou jogadores sul-americanos, sempre os melhores. E assim um brasileiro, Filó, extraordinário ponta direita, 24 anos, antes de Didi, Garrincha e Pelé, foi campeão do mundo mas pela Azurra.

Filó era Amphiloquio Marques Guarisi, um oriundi e nesta condição recebeu nacionalidade italiana e um lugar na Nacionale. A história repete-se agora. País pentacampeão e não sei mais se 10ª ou décima qualquer coisa economia do mundo, a desorganização é a mesma: calendário irracional, clubes endividados, dificuldades de encontrar patrocínio.

A Medida Provisória já em vigor, que no todo é positiva, não pode ter sua discussão reduzida à transformação dos clubes em empresa, a panacéia da vez. Portugal optou por esse caminho e deu-se mal. O Benfica é hoje um time inexpressivo, mais lembrado por suas dívidas e depoimentos dos dirigentes na Polícia e na Justiça que por feitos no esporte. Na Itália, a situação é complexa. Em estado falimentar encontram-se Fiorentina, Sampdoria e Nápoles. Outros clubes-empresa vão bem porque liderados por empresários ricos e com ambições de poder (Milan), ou ancorados em grupos poderosos, como a Juve de Turim, ligada a Agnelli ou Lazio, do Cirio.

Mas essa associação nem sempre leva ao paraíso. Se o carro-chefe vai mal, o futebol também sofre. É o caso do PSG, pressionado a vender Ronaldinho Gaúcho para atenuar as dificuldades de caixa da Vivendi. Há exemplos positivos, a maioria na Inglaterra. Os clubes disputam campeonatos bem organizados (não só na primeira divisão), rentáveis e podem lançar ações na Bolsa. A solução brasileira tem que ser buscada em nossas raízes.

Sou favorável à separação do futebol das demais atividades dos clubes. E da plena transparência, com a publicação de balanços verídicos. Eu repito verídicos, e auditados por empresas idôneas Mas é preciso levar em conta a realidade brasileira. O mercado dos clubes é estreito, embora o futebol seja o esporte mais popular. Pelo melhor futebol do mundo, o nosso, paga-se o ingresso mais barato. É impossível cobrar em São Paulo, Rio, Porto Alegre ou Belo Horizonte o que se cobra em Londres, Milão, Barcelona ou Munich.

O uso da marca em produtos também não proporciona receita comparável à da Europa, nem mesmo aos clubes de maior torcida. Os direitos de imagem também estão abaixo dos vigentes na Europa mas nossos clubes, para manter os jogadores que formam, são pressionados a pagar salários europeus. Outra desvantagem é a inexistência de um mercado de ações, fonte importante de capitalização de clubes europeus.

O brasileiro é inexpressivo e em lugar de atrair empresas está perdendo muitas das que estavam listadas. Se essas questões não forem levadas em conta nosso futebol continuará na década de 30 apesar da quinta estrela.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 20/07/2002.