Antonio Roque Citadini

O futebol brasileiro está às vésperas de uma outra batalha, tão ou mais importante para a continuidade de sua trajetória vitoriosa como a da última Copa.

Trata-se da mudança no estatuto legal do esporte proposta pela Medida Provisória em tramitação no Congresso Nacional. A MP veio em boa hora e terá o mérito de desbloquear o debate sobre o destino de nosso futebol que já dura cinco anos.

É bom que a questão seja colocada na ordem do dia após uma vitória consagradora de nossa seleção, quando prevalecem os humores benígnos, mais favoráveis a decisões racionais. De minha parte destacaria na proposta, como positivas, duas medidas: a que exige transparência na gestão dos clubes profissionais, como a obrigatoriedade da publicação de balanços e demonstrações financeiras auditados por auditores independentes; e a separação do futebol profissional das demais atividades dos clubes.

Ao contrário, julgaria negativa a compulsória transformação dos clubes em entidades comerciais. E flagrantemente contraditória a que considera qualquer sócio ou cotista de entidade de prática esportiva... partes legítimas para representar ao Ministério Público da União contra os dirigentes das mesmas entidades. Nenhuma sociedade comercial, de capital aberto ou fechado, está sujeita por lei a esse tipo de intervenção do Ministério Público. O futebol brasileiro é fruto da atividade dos clubes.

Os clubes precederam as federações, confederações, estado e são eles que propiciaram as condições para colocar o Brasil na elite desse esporte. Aperfeiçoar a legislação para prevenir e coibir a prática de abusos é saudável mas seria uma ignomínia instaurar um sistema de terror contra os clubes. Incompreensível também a deificação da empresa.

Seja no Brasil, na Rússia pós-comunista, nos Estados Unidos ou em qualquer parte do mundo, há empresas boas e más, empresas que cumprem ou que fraudam as leis. Fossem as empresas seres divinos, a religião as sediaria no Olimpo. No caso da teologia católica seria alterada a composição da Santíssima Trindade. Uma olhada na última Copa mostra, por exemplo, que a África tem excelentes jogadores, muitos deles verdadeiros clones de craques brasileiros. O que lhes falta para se igualarem a nós?

Clubes, exatamente organização clubista. Essa organização não pode ser destruída em nome de algo ainda impreciso para não recair no velho hábito brasileiro de copiar mal o que se faz lá fora. Nossa legislação sobre a criança, por exemplo, no caso do trabalho é mais restritiva que a européia, embora a maioria dos países europeus proporcionem aos jovens escola gratuita em tempo integral. A Medida Provisória fala muito de empresa mas não diz nada sobre a condição dessas empresas.

Serão abertas ao capital estrangeiro? Os atuais empresários poderão comprar ou montar clubes? Curiosamente nada existe na MP sobre a atividade desses senhores, os que mais lucram com as transferências de jogadores e também com a gestão dos negócios dos atletas. A Fifa impõe limites à atuação dos empresários mas suas recomendações são ignoradas no Brasil.

A MP ignora igualmente outra recomendação importante da Fifa, a da proibição de transferência de jogadores com idade mínima de 18 anos. Como disse acima, o bom humor proporcionado pela conquista da Quinta Copa cria condições para um debate racional. Um pouco da determinação de Ronaldo e da frieza de Rivaldo ao escolher o alvo no gol inglês não faria falta nesta hora.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 13/07/2002.