Antonio Roque Citadini


Escrevo emocionado com a vitória do Brasil sobre a combativa e habilidosa equipe da Turquia e afirmo, sem receio, que nosso futebol é realmente o melhor do mundo. Em meu favor, o reconhecimento dos nossos principais adversários. A reação dos ingleses à derrota diante do Brasil foi de conformismo. Aconteceu o que era esperado, o mais forte vencer o mais fraco.

Ninguém irá amaldiçoar o técnico sueco ou os jogadores. Afinal o Brasil conquistou quatro vezes a Copa do Mundo, todas as quatro jogando fora de casa. Foi duas vezes vice-campeão, e por ironia, na primeira, jogando em casa. Muitos dos clubes mais importantes do mundo, principalmente na Europa, têm entre suas estrelas jogadores brasileiros.

Somos os maiores do mundo no esporte mais popular do mundo. Além de torcedor encaro o futebol como fenômeno sociológico. Impressiona-me o seu poder de irradiar calor, despertar paixão, conquistar corações entre pessoas de todas as idades, raças e posição social. Se há controvérsia em relação a quem inventou o esporte, os ingleses, italianos, chineses ou outros povos, há unanimidade sobre quem fez dele uma arte, nós, os brasileiros.

Mais que nossas vitórias, importa a beleza, a criatividade, a maneira como nossos atletas tratam a bola. Não há antologia de futebol que omita três lances de Pelé na Copa do México: o chute do meio do campo que levou ao desespero o goleiro tcheco; o drible no excelente goleiro uruguaio Mazurkiewicz e a cabeçada contra o gol inglês.

Nenhum deles resultou em gol mas as seqüências fotográficas e as imagens da TV são mostradas continuamente em todo o mundo. E o excelente goleiro Banks tem como a jóia da coroa em seu currículo justamente a defesa da cabeçada genial de Pelé. O amante do futebol é apaixonado, aparentemente irracional porém dotado de sensibilidade artística.

Se os Estados Unidos cul-tuam seus heróis, sejam os líderes da Revolução Americana, os barões ladrões ou seus inventores e artistas; os ingleses adoram os monarcas que lhes deram um império; os alemães reverenciam seus generais, gênios da música e da literatura, temos o dever de honrar nossos gênios na arte em que são insuperáveis.

E é triste constatar que muitos deles morreram à mingua, esquecidos e desprezados. Qualquer que seja o resultado do jogo de domingo, vamos receber com aplausos e flores os nossos heróis da Copa da Ásia. E ergamos brindes a Ronaldo e a Marcos, a Rivaldo e a Cafu, e lembremos também os precursores Domingos da Guia e Leônidas, Neco e Friedenreich, sem esquecer os semi-deuses Pelé e Garrincha.

Enfim todos os que proporcionaram momentos de imensa alegria a seu povo e colocaram o Brasil em posição de destaque no cenário universal.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 29/06/2002.