Antonio Roque Citadini


Poucas profissões são difamadas em escala equivalente a de juiz de futebol.

Dificilmente um político, por exemplo, expõe-se ao coro de vaias da magnitude daqueles que explodem nos estádios. O juiz de futebol não pode se esconder. Salvo nas peladas, sem ele não há jogo. Com a experiência de advogado militante e agora de juiz de um Tribunal importante, posso avaliar o grau de dificuldade que tais juízes enfrentam.

O que não exclui uma auto-crítica, pois como torcedor também tenho meus pecados. De volta ao principal, cabe recordar que o juiz, membro do Poder Judiciário, não o árbitro de futebol, faz seu trabalho em um gabinete, com livros, revistas técnicas e arquivos de jurisprudências à sua disposição para consulta. As razões das partes em litígio estão no papel e são complementadas oralmente pelos respectivos advogados, durante as audiências. Suas decisões estão sujeitas a revisão em instâncias superiores (os tribunais), no todo ou em parte.

Isto é, se uma parte se julgar prejudicada, pode recorrer à instância superior para tentar mudar ou mesmo anular a sentença. E Sua Senhoria o árbitro de futebol? Ele trabalha sob sol, chuva ou neve, diante de grandes e irreverentes platéias. É obrigado a movimentar-se continuamente, de olho na bola e também nos 22 jogadores. Sua decisão tem de ser instantânea.(A instantaneidade poderá cedo ou tarde ser exigida também dos demais juízes, se prosseguir a situação atual, de poucos juízes para montanhas de processos).

Não pode levar em conta o que dizem as partes, jogadores e torcedores exaltados. O juiz é ele. Certa ou errada a decisão que irá figurar na súmula é sua, de sua exclusiva responsabilidade. E não poderá ser modificada. Se o bom goleiro precisa de sorte, o árbitro muito mais. Já os críticos de arbitragem, eu próprio incluso, podem ter a visão do jogo no estádio, às vezes de ângulo mais favorável que o do juiz e depois de conferir o visto com as imagens da televisão, crucificar o árbitro.

O próprio árbitro, confrontado com o videotape, pode robustecer sua confiança ou ficar abatido diante de um erro. Tarde demais. Não há volta. A controvérsia sobre o juiz é um ingrediente a mais para avivar a paixão pelo futebol. Porém não se iguala à própria dinâmica do jogo, traduzida no comportamento do craque, em sua capacidade de criar.

Por mais que a preparação física e as estratégias e táticas do jogo se aprimorem, o futebol jamais vestirá a roupagem matemática do xadrez. E mesmo no jogo de xadrez aparecem “fenômenos” capazes de inovar, como um Kasparov.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 18/05/2002.