Antonio Roque Citadini

Clube de maior torcida do país, líder de audiência na TV e rádio, o Corinthians tem o que comemorar nos seus 90 anos de história. No começo, quando o futebol era esporte da elite, algo como o golfe é hoje no Brasil, não passava de um time de várzea, de futuro mais que incerto. Preto, só na camisa. Na contabilidade, vermelho. Nem o modesto aluguel da sede, uma sala no Bom Retiro, era pago, para irritação do senhorio. A pendura de 35 mil reis provocou violenta reação: despejo e confisco dos móveis, além do escasso material de escritório, como garantia da dívida.

O clube perderia, de uma só vez, todo seu patrimônio. Esta história teve final feliz, graças a Neco, então um garoto, e outros voluntários que resgataram os bens do time em audaciosa “excursão” noturna à sede. Vale a pena relembrá-la agora, quando se fala de crise no futebol e crise nos clubes, às vésperas da Copa do Mundo. O que está acontecendo? Na última semana o futebol reuniu multidões nos estádios e prendeu à tela da TV centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, para ver as finais de competições nacionais e jogos de seleções que vão se enfrentar na Coréia e Japão. Onde está a crise?

Certamente não no esporte, no produto, como diria um profissional de marketing. Acertaria quem localizasse a crise na exploração comercial do esporte. A começar pela FIFA, na negociação dos direitos de transmissão das Copas e das gigantes do marketing esportivo, vítimas, algumas delas, de sua própria cupidez. No Brasil, país onde o capitalismo não dispensa ajuda da “mão visível do Estado”, o futebol enfrenta muitas dificuldades para se firmar como negócio rentável. No passado, por pressão do governo, o preço dos ingressos era artificialmente baixo e rádios e tvs não pagavam pela transmissão.

Para compensar, o governo não cobrava os impostos. Depois, com o dinheiro da TV, os ingressos permaneceram baixos mas os clubes tinham o passe do atleta, agora fonte de receita em extinção. E, vale a pena repetir, o futebol continua em alto nível mas sua organização pouco ou nada avançou. Para piorar, fez-se um calendário que deixou grandes clubes inativos mais tempo que o habitual em Copa do Mundo.

O fundo do poço. Não é preciso dizer mais. É hora de agir e eu creio que os clubes reunidos na Liga Nacional estão no caminho certo. Vão vencer a crise sem necessidade de pular a janela, como Neco e seus bravos companheiros.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 11/05/2002.