Antonio Roque Citadini


Àqueles que acompanham com grande interesse a história de rivalidades entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva Palmeiras, rivalidade esta que adentra o seu 85º ano, vale a pena recordar de um dos mais polêmicos casos que envolveram ambas as agremiações e que, devido à repercussão na época, ficou registrado na memória dos torcedores durante gerações, bem como inspirou a alguns intelectuais.

Nas primeiras décadas do século passado, quando o futebol encontrava-se ainda em sua fase amadora, era característica das equipes possuírem jogadores dispostos “a dar tudo” em favor de seu clube, já que estes não recebiam qualquer espécie de remuneração e jogavam apenas por puro “amor à camisa”. Tais paixões eram mais exaltadas quando da ocorrência dos confrontos entre Corinthians e Palmeiras (na época denominado Palestra Itália) que, no início dos anos 20, já cultivavam intensa competitividade havia três anos.

No dia 5 de setembro de 1920, quando da realização de um jogo entre os dois times, válido pelo Campeonato Paulista daquele ano, o Palestra, que caminhava para assegurar a conquista de seu primeiro título estadual, envolveu-se em sério atrito com os alvinegros, quando estes reverteram a vantagem de um gol que os alviverdes haviam marcado, assinalando dois tentos e, desta forma, assegurando a vitória.

O encontro, que foi marcado por brigas e agressões de todo tipo e pela impunidade dos jogadores, atingiu seu ponto culminante de tensões, quando o goleiro palestrino Primo, chocou-se com o atacante corintiano Neco, que o agrediu a pontapés. Seguindo-se uma verdadeira batalha campal ao ocorrido, em meio à tensão, Neco ameaçou usar a cinta que usava para prender o calção, no intuito de por “ordem na casa”, sobrando até mesmo para o árbitro Odilon Penteado do Amaral, devido à falta de “pulso firme” deste na arbitragem da partida.

Uma outra história que ronda este jogo, segundo as más línguas, afirma que Neco teria recebido 500 mil réis de um dirigente palestrino para fazer corpo mole.

O glorioso campeão alvinegro, no entanto, teria avisado seus companheiros antes do jogo, e usado o dinheiro para festejar com eles a vitória de 2 a 1 sobre o rival. Apesar da imensa confusão que gerou, Neco não foi expulso e os torcedores depredaram o local do encontro, no caso o Parque Antárctica.

O Palestra, por sua vez, inconformado com a derrota para o alvinegro, chegou a pedir licença para a entidade máxima do futebol de São Paulo, a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), que em reunião realizada em 17 de setembro de 1920, negou o pedido, restando ao time alviverde disputar um jogo-desempate contra o Paulistano, para sagrar-se campeão.

O conflito, no entanto, ficou gravado na memória dos que lá estiveram presentes, transformando - se em uma história que seria perpetuada pelos torcedores e que inspiraria a concepção de um dos mais famosos contos de Antonio de Alcântara Machado: Corinthians (2) vs. Palestra (1), do livro Brás , Bexiga e Barra Funda, publicado em 1927.

(Reprodução)




O Expresso, Capão Bonito/SP, 20/04/2002.