Antonio Roque Citadini


O futebol, convém repetir, é diversão, paixão e também negócio. Em suma, é uma atividade econômica legítima. Seu principal agente, o clube, promove espetáculos, cria uma infinidade de empregos, diretos e indiretos, paga impostos. Até dá uma contribuição (modesta) para a receita cambial do país, com as transferências de jogadores ou participação em competições internacionais. Deveria ter, como as demais atividades econômicas legítimas, garantias do Estado.

Não é o que acontece. Vejamos. A grande maioria das atividades econômicas funciona o ano todo. A sazonalidade, como na agricultura, é a exceção, não a regra. Lógico. Como pagar salários o ano inteiro, mais a gratificação natalina (13o.), férias, despesas administrativas, etc. sem funcionar parte do ano? No passado os clubes dos grandes centros, especialmente Rio e São Paulo, podiam contar com a receita de excursões pelo país. Ganhava o Corinthians ou Flamengo e também o clube da cidade hospedeira. Hoje esse tipo de jogo amistoso perdeu o sentido.

Em qualquer povoado os aficcio-nados conhecem as estrelas do futebol, pela TV e ao vivo, durante os jogos nas cidades importantes de seus estados, por ocasião do Nacional ou das Copas. Para ter receita os clubes precisam estar em atividade, o que exigiria um campeonato nacional de no mínimo oito meses de duração, com jogos só nos fins de semana e nos meios de semana, parte do ano, jogos das taças, como se faz na Europa. Tal calendário é bom para o clube e também para investidores, por deixar claro, já antes da temporada, quantas vezes suas marcas serão expostas e em que lugares.

Para a televisão também haveria vantagem na organização da sua grade e planejamento comercial. Até os mais protegidos setores econômicos reclamam de qualquer intervenção do governo. Agora mesmo os bancos estão lutando para serem excluídos do cumprimento do Código de Defesa do Consumidor. Já os clubes, com a Lei Pelé, perderam as receitas do passe e seus maiores ativos e nada ganharam em troca.

A lei não impôs nenhuma limitação à atividade dos empresários e assemelhados, os procuradores. Nada contra a abolição do passe mas é impossível aceitar que o atleta fique preso ao empresário ou procurador, até por toda a vida, e isso a partir da infância. Os contratos leoninos são assinados pelos pais, gente humilde, grau de instrução ínfimo, sem saber que estão transformando seus filhos em escravos. Não há nada equivalente no mundo civilizado.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 13/04/2002.