Antonio Roque Citadini


No ranking da FIFA o Brasil está em terceiro lugar, atrás da França, atual campeã do mundo e da vizinha Argentina, que tem no momento melhor campanha que a nossa. Seleção é o reconhecimento da força do futebol verde-amarelo, não obstante nossos últimos tropeços. E mais, somos elite da elite do futebol mundial, algo como os Estados Unidos, Japão ou União Européia na economia. Uma posição contrastante com a penúria em que se encontra a maioria dos grandes clubes brasileiros, os artífices da grandeza de nosso futebol. Situação inaceitável para clubes, atletas e profissionais que vivem do esporte e também para o público.

Os erros são conhecidos, a começar pela falta de um calendário racional. Como foi possível adotar o atual, capaz de ameaçar o Flamengo com quatro meses de inatividade? Ninguém vislumbrou essa hipótese antes porque nos viciamos em organizar campeonatos como se faz no exterior, com as Copas e Torneios em que os perdedores vão ficando pelo caminho, na vã esperança de torná-los mais atraentes. Não é o que acontece.

A fórmula universal é a da divisão dos clubes de acordo com a sua força e em cada categoria a disputa de todos contra todos, pontos corridos, jogos de ida e volta. E mais, regras claras de acesso e rebaixamento, para oxigenar as principais categorias, além de animar a disputa nas categorias inferiores. A adoção de tal critério permitiria realizar um campeonato nacional de dez meses, de março a dezembro, intercalado, parte do ano, nos meios de semana, com outros torneios, como a Copa do Brasil, etc. Esta fórmula equivale àquela conhecida na geometria, de que a reta é a menor distância entre dois pontos. Ou ao “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues.

Por isso mesmo é a mais universal. Com ela nenhum clube ficaria ameaçado de inatividade. Poderia mudar de categoria, descer para a segunda ou subir, o que daria a cada partida a condição de jogo decisivo. Esses são os requisitos básicos para o futebol brasileiro atrair investidores. As características do produto seriam conhecidas de antemão. A empresa X ou Y saberia quantas vezes e onde sua marca seria exposta.

A sonhada venda antecipada, mediante carnês, enfim, teria oportunidade de ser usada. Sistema parecido vige também em outros esportes praticados pro brasileiros. A Fórmula 1, por exemplo. O autódromo de Interlagos fica pronto no dia certo, como os demais recursos. Para chegar a esse nível de profissionalização é necessário que os clubes se compenetrem de que são os reais donos do poder no futebol, não as federações e confederações.

Quem proporciona as rendas, a CBF? As federações? Evidente que não.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 06/04/2002.