Antonio Roque Citadini


A palavra crise, quando relacionada ao futebol, tornou-se pleonasmo. João Saldanha morreu pouco depois da Copa de 1990 e, durante décadas, repetiu que nosso futebol só evoluíra dentro das famosas 4 linhas. A rigor, os problemas daquela época persistem e até se agravaram. Agora parece chegado o momento da ruptura, da solução, porque só um vendaval atômico, de norte a sul, poderia extinguir o futebol no Brasil, junto com todo o povo.

A causa da confusão reinante, a meu ver, é a incompleta profissionalização do futebol. A incompreensão de que o esporte é, ao mesmo tempo, paixão e negócio. E como tal, exige grandes investimentos e deve dar lucro. E para isso precisa de investidores. Não é assim com outros esportes como automobilismo, golfe, tênis, boxe e o próprio futebol em outros países? Nosso futebol, apesar de tudo é um dos melhores do mundo, chegou a atrair investidores.

Mas a atração durou pouco por vários motivos: mudanças na legislação, com o fim do passe sem criar, simultaneamente, garantia real para o investimento dos clubes nas categorias de base; limitar o raio de ação dos investidores a um só clube, enquanto empresários e procuradores têm plena liberdade para seus negócios. O resultado é que hoje existem empresários donos de elencos mais numerosos que os dos grandes clubes. E os clubes, ao menos no Sudeste e Sul, são pressionados a pagar salários europeus aos jogadores e comissões técnicas, com receitas modestas.

A bilheteria, uma fonte de receita importante, míngua no Brasil. Os estádios não oferecem conforto aos expectadores como seria esperado. Enquanto quase todo restaurante tem estacionamento, próprio ou em convênio, os estádios nada oferecem. Como resultado, a receita fica concentrada na TV, só interessada em transmitir jogos da divisão de elite. Por fim, a exportação de jogadores também diminuiu, por causa da crise na Europa e da concorrência dos países do Leste Europeu.

O Corinthians é hoje o único dos grandes clubes a contar com um parceiro. Os dois lados têm demonstrado maturidade na gestão de um negócio difícil, confiantes em mudanças. Querem, com o próprio exemplo, contribuir para apressar a desejada mudança. O Corinthians, promovendo a separação do futebol das atividades sociais, para tornar mais transparente sua gestão profissional e assim criar um clima propício à construção do estádio. O parceiro, completando o pagamento do terreno, por si só um grande investimento, tornando claro sua disposição de continuar a investir.

Clubes de cidades econômica e politicamente de porte inferior a São Paulo, como o Betis de Sevilha ou o La Coruña, da cidade de mesmo nome, têm estádios modernos invejáveis. Por que não São Paulo também? Onde foi parar o nosso tão celebrado espírito bandeirante? Minha aposta é que ele continua vivo e presente no coração corintiano.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 30/03/2002.