Antonio Roque Citadini


Nada mais comum que o apelo ao sobrenatural, à ajuda divina. O ser humano é capaz de lutar pelo que ambiciona e o faz, mas contempla sempre a possibilidade de uma intervenção de fora, de um milagre. No futebol, como no amor, negócios ou política, não é diferente. O torcedor quer a vitória sempre e não raro julga insuficiente para alcançá-la só o esforço de onze atletas em campo. Aí vale tudo.

Simpatias, promessa ao santo de sua devoção, consulta ao horóscopo do técnico e dos jogadores, e por que não, ” um trabalho” de macumba. Invocar o santo, recorrer a simpatias, horóscopo, tudo bem. A coisa pega no caso da macumba. No passado toda prática não permitida pela religião oficial era punida. A Igreja Católica, na Inquisição, queimava os infiéis. A macumba veio da África, com os escravos e até quase a metade do Século XX era reprimida a sabre. O negro liberto só conseguiu o direito de praticar sua religião com a Constituição de 1946.

O duplo estigma – memória da repressão e do preconceito, “coisa de negro”- está presente na discussão de macumba e futebol. O palmeirense Pascoal Giuliano ignorou o estigma e na partida decisiva do Campeonato Paulista de 1954, em jogo o título de Campeão do Centenário, contra o Corinthians, fez o time entrar em campo de camisas azuis, por recomendação de um “Pai de Santo”. Deu empate, 1 x 1, e o Corinthians sagrou-se Campeão do Centenário.

Pascoal Giuliano perdeu o título, a admiração dos palmeirenses e ainda teve que suportar as piadas de Oswaldo Brandão, o técnico vitorioso, sobre sua decisão de trocar o verde pelo azul.


(Foto: GAZETA PRESS)

Palmeiras em seu uniforme azul.


O Expresso, Capão Bonito/SP, 02/02/2002.