Antonio Roque Citadini

Em meio a uma das maiores crises econômicas que o mundo vive nestes últimos cem anos, dias atrás o esporte recebeu a bombástica notícia das contratações de Kaká e Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid.

A notícia surpreende não somente pelos valores envolvidos (€ 65 mi e € 94 mi), mas porque o clube espanhol se encontra imerso em enorme dívida, cerca de R$ 1,3 bi, como informou Jamil Chade, no Estado, na semana passada. A reportagem traz informação mais surpreendente ainda: a de que a contratação dos superastros somente foi possível graças à linha de crédito de dois bancos espanhóis, Caja de Madrid e Grupo Santander, que, em troca do vultoso empréstimo, obtiveram como garantia a renda que virá dos direitos de transmissão dos jogos do time pela tevê.

Sob todos os pontos de vista a negociação traz interrogações: o fato de que a crise econômica que se abate sobre o mundo não ter sido superada e, pelo contrário, alguns afirmam que não chegamos ao fundo do poço; os bancos, em todos os países, inclusive os espanhóis, foram socorridos por muito dinheiro dos governos e, portando, deveriam evitar operações de retorno duvidoso.

De há muito, clubes de futebol, especialmente os espanhóis, não trabalham com a ideia de que suas receitas devem suportar suas despesas.

Fosse essa a meta, esses negócios não teriam ocorrido. A lógica é de que se façam aventuras, porque o governo os socorrerá depois. Só isso permite tal tipo de contratação.

Como em passado próximo, o Real Madrid foi socorrido pelo governo local, por meio de generosa compra de imóvel.

Já é tempo de o futebol superar essa “exuberância irracional”, de que falava Alan Greenspan, ao criticar a exagerada especulação no mercado de ações norte-americano.

Ou os clubes sobrevivem com orçamentos equilibrados, ou teremos de instituir o modelo espanhol de subsídios para essas contratações economicamente insustentáveis.

O exemplo apresentado pelo Real Madrid é péssimo indicativo a todo o futebol. Ele não deve servir de parâmetro nem para os clubes brasileiros nem para o governo. As agremiações devem buscar equilíbrio em suas contas e não trabalhar com a expectativa de terem sempre um grande déficit a ser coberto por ações oficiais.

Antonio Roque Citadini é conselheiro do SC Corinthians Paulista


O Estado de S.Paulo, Esportes, 'Da numerada', 21/06/2009, p.6.