Antonio Roque Citadini


A parceria Corinthians-MSI (nome fantasia de um fundo de investidores soviético) inicia seu trabalho com muitos erros e perigosas medidas.

As razões porque questionei a parceria são conhecidas. O Corinthians, clube de tão grande penetração social, não pode se juntar para gerir o futebol com sócios ocultos representados por um único desconhecido operador de mercado.

Investidores secretos e contrato leonino, em que o Corinthians cede tudo, sem garantias ou qualquer proteção, é o caminho certo para problemas.

A matéria publicada pela revista Caros Amigos na edição de Fevereiro/2005 com o título “A Escandalosa História do Novo Corinthians” tudo esclarece sobre os parceiros, seus negócios, atuação, audácia e perigo.

Mais preocupante, porém, que as discussões jurídicas, econômicas e policiais que precederam a parceria são os fatos decorrentes das primeiras medidas tomadas pela MSI-Corinthians.

De início, é preciso dizer que contratar jogador é sempre bom, melhor ainda quando este é um craque. Nada, portanto, contra Tevez, Carlos Alberto ou outro atleta qualquer como reforço. Vejamos no entanto o que ocorre além da contratação de jogadores.


1-Pagamentos feitos sem passar pelo Brasil. Durante os seis meses de discussões sobre a parceria, por pressão dos opositores, os defensores do negócio afirmaram que toda contratação teria como intermediário o Banco Central brasileiro. Por sugestão dos que se opunham à parceria incluiu-se ao contrato uma cláusula chamada know your client, que era na verdade um certificado de boa qualidade da remessa do dinheiro para o Corinthians. O prometido foi esquecido. E o que se vê é uma tentativa desesperada da MSI de esconder a forma de pagamento dos atletas contratados. Estabeleceu-se então um critério onde o Corinthians contrata e misteriosas contas enviam dinheiro sem passar pelo Brasil, pelo Banco Central ou pelo Corinthians. Estas medidas trarão no futuro graves problemas para o Corinthians.
Como é sabido e fartamente noticiado pelos jornais, logo após a CPI do futebol, o Banco Central brasileiro passou a vistoriar periodicamente contratações de clubes brasileiros com agremiações estrangeiras. Em todas as situações em que o clube não fez diretamente o pagamento, o BC puniu a agremiação brasileira. Ainda há poucos dias foram divulgadas sanções ao São Paulo, o mesmo já havia ocorrido ao Flamengo, Botafogo, Palmeiras e tantos outros.
Os argumentos hoje usados pela MSI para justificar o pagamento direto dando um “chapéu” no BC são conhecidos e reiteradamente empregados por clubes brasileiros em operações semelhantes. Histórias tais como “A MSI comprou e doou ao Corinthians”, “Quem comprou foi uma empresa do exterior”, “Foi um presente para o Corinthians” etc. são repetições de argumentos não aceitos pelo BC brasileiro.
Os próprios advogados do Corinthians sabem disso e, se o contrato não fosse tão ruim e deixasse o clube indefeso, não aceitariam. A contratação de Tevez por um valor de aproximadamente 20 milhões de dólares feita entre Corinthians ao Boca Juniors e paga com uma transferência do Canadá, segundo informa e Boca, está sendo investigada até pelo BC argentino. Carlos Alberto, de quem a imprensa pouco fala, foi adquirido por um fundo de investidores russos que controla o Porto e também foi pago diretamente ao preço de 7 milhões. Sebastian, adquirido do New Old Boys teria sido pago diretamente no valor de 3 milhões de dólares se bem que em uma conta errada.
Ao Corinthians que assinou um contrato extremamente leonino cabe apenas aguardar a chegada da notificação do Banco Central. Pouco poderá fazer além de repetir argumentos já utilizados por clubes em processos anteriores e que foram recusados pelo Banco Central.


2-Jogadores contratados de clubes brasileiros. Uma única contratação feita pelo MSI dentro do Brasil, do jogador Marcelo Costa do São Caetano, longe de trazer tranquilidade, aumentou as preocupações. O pagamento teria sido feito por um terceiro, sem vínculos com o Corinthians ou com a MSI, estranho ao clube e à empresa, e que teria dado ao clube um cheque de 1 milhão de dólares em pagamento ou garantia da operação.


3-Os 20 milhões de dólares que não chegam. Nos meses em que se discutiu a parceria, o principal argumento que estimulava conselheiros favoráveis à parceria a defender o negócio era que a MSI pagaria imediatamente todas as dívidas que o clube tinha. Não foram poucos conselheiros que disseram que o contrato era ruim mas que havia necessidade de o Corinthians obter dinheiro para saldar suas dívidas. Por muitas vezes nas reuniões ocorridas nestes últimos seis meses os dirigentes favoráveis à parceria, notadamente os quatro que foram a Londres e à Geórgia (presidente Alberto Dualib, sra. Carla Dualib, sr. Nesi Cury e sr. Andres Sanchez) reafirmaram que o Corinthians teria suas dívidas imediatamente quitadas. Ainda nas reuniões o próprio presidente alertou que em 48 horas o clube resolveria todos os seus problemas financeiros. No contrato distribuído quando das discussões estabelecia-se o prazo de 15 de dezembro de 2004 para o início da liquidação das dívidas. Pois bem, decorridos quase dois meses o que era um aporte de 20 milhões de dólares transformou-se num empréstimo de 2 milhões de dólares, com o clube um hipotético credor de 20 passando a ser real devedor de 2. Os argumentos justificadores do adiamento “queda do dólar” etc, soam mais como fragilidade do clube de que reais justificativas.


4-PEPSI, não; Globo, sim. Entre os defensores da parceria muitos destacavam a audácia profissional que seria adotada pela MSI. Não foram poucos os que festejaram a recusa em manter a publicidade da Pepsi na camisa, uma vez que a MSI exigia 30 milhões anuais pela propaganda. Esta seria uma estratégia de quem supostamente valoriza o clube e não aceita pagamentos inferiores a 8 milhões, montante que equipes como o Corinthians recebem por publicidade em sua camisa. A notícia do “estratégico profissionalismo” durou apenas 24 horas, ou seja, até o momento em que o executivo da MSI disse para a Globo que os valores do contrato já estavam bons e não precisava exigir mais nada. Ficamos assim num paradoxo: para a publicidade na camisa uma exigência alta a mostrar profissionalismo e audácia; para os direitos de TV, um amadorismo extremado que se contenta com a quantia já estabelecida. Contudo, tudo isso fica mais claro quando olhamos os clubes do exterior Real Madri, Barcelona, Juventes, que cobram pelos direitos de TV de três a cinco vezes o valor de publicidade recebido pela camisa. Seria assim: da Pepsi, 30 milhões exigíveis, e, da Globo, no mínimo 90 milhões. Para a Pepsi se exigiu triplicar o valor, e da Globo contentou-se com os 24 milhões atualmente pagos.


Estas medidas aqui lembradas discutem apenas os atos públicos da MSI, muito, mas muito mais teríamos a polemizar sobre informações pouco conhecidas.

Diferentemente do que acreditam uma parcela de dirigentes de futebol e de jornalistas, o Brasil não é um país sem instituições, aberto a todo tipo de esperteza e de negócios sem regras. Não há surpresas em ver as preocupações do BC, questionamentos do Ministério do Trabalho, ou na ação do Ministério Público, uma vez que o país é uma nação com instituições consolidadas. Se os padrões do Camarote da Brahma são daqueles que acreditam que somos uma nação de vira-latas, sujeita a toda esperteza de uma lúmpen burguesia, isto não ocorre no restante do país. Para conquistar espaço no Camarote da Brahma basta uma boa e motivada conversa com uma promoter. Felizmente os padrões do país não são os do camarote da Brahma. O vice-presidente da Fifa Julio Grondona, ao manifestar sua preocupação sobre a ação de investidores como a MSI, desabafou perplexo: “Nós estamos vivendo em um mundo onde o normal é o anormal”. Creio que o dirigente argentino não ficará frustrado ao saber que no Brasil o normal é normal e o anormal é anormal.

Ainda que a Brahma não ache isso em seu camarote.